ArtigoA aplicação do EAA já começou na Europa

Sandra Costa

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O European Accessibility Act (EAA) deixou de ser um marco regulatório distante. Apesar de muitas organizações portuguesas ainda o associarem a algo do futuro, a fiscalização prática já está em curso em vários países europeus, com queixas reais de consumidores, auditorias oficiais e pedidos formais de correção.

Para as empresas portuguesas que oferecem produtos ou serviços digitais a consumidores europeus, este é um momento crítico. Em 2022, o Decreto-Lei n.º 82/2022 já recomendava a aplicação das normas de acessibilidade à maior parte dos setores empresariais. No entanto, após a publicação do EAA, ou seja, a partir de 28 de junho de 2025, as recomendações previstas pelo DL 82/2022 passaram a ser obrigatórias, dando início a um período de fiscalização mais regular e incisivo, com a aplicação de multas para os não conformes.

Este artigo, inspirado na análise da Deque Systems, explica o que já está a acontecer na Europa, os riscos concretos para Portugal e por que agir agora é essencial.



Como o EAA já está a ser aplicado na prática

Um dos principais sinais identificados na análise da Deque é o papel central das queixas apresentadas pelos utilizadores. Pessoas com deficiência que não conseguem completar tarefas essenciais online estão a recorrer cada vez mais aos mecanismos formais de denúncia, desencadeando processos de averiguação.

Estas queixas estão normalmente associadas a problemas como formulários inacessíveis, falta de navegação por teclado, falhas com leitores de ecrã ou contraste insuficiente. Quando uma queixa é considerada válida, as empresas podem ser obrigadas a explicar a sua abordagem à acessibilidade, apresentar documentação técnica e implementar correções dentro de prazos definidos.

Outro sinal relevante é a expansão das auditorias de acessibilidade para o setor privado. Organizações que operam em setores de consumo ou serviços essenciais estão a ser avaliadas através de processos semelhantes aos do setor público, incluindo testes manuais, análises de conformidade com WCAG e pedidos de declarações de acessibilidade ou políticas internas.

Um fator particularmente crítico é a ausência de documentação. Cada vez mais, não basta que uma plataforma seja parcialmente acessível. As autoridades esperam que as empresas consigam demonstrar um processo contínuo, com testes regulares, responsáveis definidos e planos de melhoria estruturados.



Exemplos concretos do que já está a acontecer na Europa

A realidade europeia mostra que a fiscalização já começou a acontecer de forma prática e progressiva. Segundo exemplos documentados pela Deque Systems, há padrões claros a emergir em diferentes mercados europeus:

  • Na Holanda, queixas de utilizadores levaram a auditorias direcionadas a plataformas de e-commerce e serviços digitais, obrigando empresas a apresentar documentação técnica e a implementar correções com prazos definidos.
  • Em França, ações legais movidas por associações de defesa dos direitos das pessoas com deficiência contra grandes retalhistas online resultaram em forte pressão legal e exposição pública devido à inacessibilidade contínua dos websites.
  • Na Suécia, a fiscalização tem-se focado em plataformas digitais de consumo, com inspeções baseadas em critérios WCAG e exigência de correções rápidas para problemas como navegação por teclado e compatibilidade com leitores de ecrã.

O padrão é claro: sempre que um utilizador não consegue realizar tarefas essenciais como comprar, pagar ou aceder a serviços, a aplicação do EAA é acionada através de queixas formais.



O impacto real para as empresas portuguesas

A legislação portuguesa prevê coimas que podem atingir valores elevados, consoante a gravidade da infração. No entanto, o impacto não se resume às penalizações financeiras. Existem riscos associados a processos formais, prazos de correção impostos externamente, exposição pública e perda de confiança por parte dos utilizadores.

Em setores como banca, seguros, saúde, serviços públicos, transportes ou e-commerce, estes riscos são ainda mais relevantes. Quando os canais digitais são críticos para o acesso a serviços essenciais, falhas de acessibilidade podem significar exclusão real de utilizadores.



Quem atua e como

A fiscalização do EAA envolve várias entidades setoriais. A ANACOM tem poderes sobre e-commerce e telecomunicações, podendo exigir documentação técnica, suspender vendas e aplicar coimas até €44.891. A ASAE pode retirar do mercado produtos digitais não conformes, enquanto o Banco de Portugal já avalia aplicações de mobile banking com base nos critérios WCAG 2.2 AA.

O Instituto Nacional para a Reabilitação (INR) funciona como ponto de entrada para queixas de consumidores, encaminhando-as para as autoridades competentes.



Porque adiar é a pior estratégia

É comum ouvir que a acessibilidade é tida em conta apenas se surgir uma queixa. Esta abordagem reativa é, na maioria dos casos, a mais cara e a mais difícil de gerir.

Corrigir problemas de acessibilidade sob pressão regulatória implica decisões apressadas, esforço de desenvolvimento não planeado e impacto direto em roadmaps e prioridades. Em contrapartida, integrar a acessibilidade desde o início permite reduzir drasticamente os custos de correção e evitar repetir trabalho significativo, ao mesmo tempo que melhora a experiência para todos os utilizadores.



Como a Mediaweb ajuda as organizações a prepararem-se

A Mediaweb trabalha com organizações em diferentes níveis de maturidade em acessibilidade. O nosso apoio inclui auditorias de acessibilidade alinhadas com WCAG 2.1 (diretriz recomendada para cumprir com as diferentes normas), combinando testes automáticos e manuais para identificar problemas reais e priorizá-los de forma clara.

Apoiamos também a correção prática desses problemas, trabalhando diretamente com equipas de design e desenvolvimento para garantir soluções sustentáveis. Paralelamente, promovemos formação orientada a diferentes perfis, para que a acessibilidade seja incorporada no dia a dia das equipas.

Enquanto parceiro oficial da Deque em Portugal, aliamos boas práticas internacionais a um conhecimento profundo do enquadramento legal e do contexto das organizações portuguesas, recorrendo a ferramentas de referência no mercado para auditoria, monitorização e validação contínua da acessibilidade digital.



Considerações finais

Os primeiros sinais de fiscalização do EAA na Europa enviam uma mensagem clara: a acessibilidade digital já não é uma discussão futura, é uma responsabilidade presente para as empresas portuguesas.

Os casos documentados pela Deque na Holanda, França e Suécia mostram o padrão que Portugal deverá seguir.

As empresas que agem agora conseguem reduzir exposição legal, melhorar a experiência dos utilizadores e construir produtos digitais mais resilientes para os próximos anos. Quem espera, será forçado a reagir, sob pressão regulatória, com menos opções e custos significativamente mais elevados.

Por este motivo, compreender onde a sua organização está hoje é o primeiro passo. A Mediaweb está preparada para avaliar o risco EAA específico do seu negócio e definir um roadmap WCAG 2.2 AA que protege a sua operação e melhora a experiência dos seus clientes.

O momento de agir é agora!




FAQ

Na maioria dos casos, sim. Se a sua empresa disponibiliza produtos ou serviços digitais a consumidores finais na União Europeia como e-commerce, aplicações móveis, serviços bancários, plataformas de pagamento ou portais de cliente, está provavelmente abrangida pelo EAA.

Não. A aplicação do EAA não depende apenas da dimensão da empresa, mas do tipo de produto ou serviço digital oferecido e do mercado a que se destina. Pequenas e médias empresas também podem estar obrigadas a cumprir.

O Decreto-Lei n.º 82/2022 referencia a norma EN 301 549, que incorpora as WCAG 2.2 Nível AA como padrão técnico mínimo para produtos e serviços digitais.

Em Portugal, as queixas podem ser submetidas através do INR, que as encaminha para a autoridade setorial competente (como ANACOM, ASAE ou Banco de Portugal). A empresa pode ser chamada a apresentar documentação técnica e a corrigir os problemas dentro de prazos definidos.

As coimas podem atingir até €44.891, consoante a gravidade da infração. Para além das multas, podem ser impostas medidas corretivas obrigatórias, suspensão de serviços ou retirada de produtos do mercado.

Não. As ferramentas automáticas identificam apenas uma parte dos problemas de acessibilidade. Para conformidade legal e redução de risco, são necessários testes manuais, revisão de UX e validação especializada.

Sim. A existência de uma declaração de acessibilidade, acompanhada de documentação técnica e evidência de um processo contínuo de melhoria, é cada vez mais exigida pelas autoridades no contexto de fiscalização.

Depende da dimensão e complexidade da plataforma. No entanto, iniciar o processo cedo permite definir prioridades, reduzir custos e evitar correções urgentes sob pressão regulatória.

Não. Para além da conformidade legal, a acessibilidade melhora a experiência de todos os utilizadores, aumenta a confiança na marca e contribui para produtos digitais mais robustos e preparados para o futuro.